Qual a origem do nome Lagoinha?

Por Daniel Queiroga — Colunista de Cidade e Patrimônio

Pergunte a qualquer morador de onde vem o nome Lagoinha e a resposta vem rápida: havia uma lagoa por aqui. A resposta está quase certa.

Era uma vez… um lugar chamado Lagoinha… Tão distintivo e repleto de histórias que é conhecido, por alguns, como a capital de Belo Horizonte… para outros é o coração do mundo. Antes de chegar à resposta, vale entender o significado desse substantivo.

Alagoinha, Lagu-inha e Lagouinha são corruptelas do substantivo lagoinha que, por sua vez, é um diminutivo de lagoa que é uma porção de água menor que um lago rodeado de terra por todos os lados com pouca profundidade. Lagoa tem sua origem no latim lacuna que também significava no idioma da Roma Antiga fosso, poça e brejo.

Lagoa é sinônimo de aguaçal, baixada, brejo, charco, encharcado, ipueira, lamaçal e tremedal. Lagoinha rima com broinha, canoinha, coroinha, coxinha, joinha, murrinha, pessoinha, ventoinha, e, também, com alagoinha. Esta última é uma lagoa de pequenas dimensões e pouca profundidade, alimentada por cursos de água que não se preservam por um longo tempo. A definição de alagoinha me remete à ideia de remanso que nada mais é que uma porção de água que penetra em recorte curvo da margem do rio e forma uma espécie de pequena enseada tranquila interrompendo o fluxo da corrente.

Lagoinhas e alagoinhas estão espalhadas por todo o universo, por isso é um nome comum. Na época do Brasil colônia a palavra era encontrada em sesmarias da coroa portuguesa para os bandeirantes desbravadores da terra de pindorama. Atualmente alguns municípios do país têm bairros com o nome Lagoinha, são eles: Patos de Minas e Uberlândia (MG), Nova Friburgo, Nova Iguaçu e São Gonçalo (RJ), Florianópolis (SC), Mairinque e Ribeirão Preto (SP). Em Belo Horizonte há, também, outro bairro situado em Venda Nova, denominado Lagoinha-Venda Nova. Há um município homônimo no Piauí e outro em São Paulo e uma praia no município de Paraipaba no Ceará que é cercada por diversas lagoas de água doce.

Lagoinha ainda dá nome a um clube de futebol amador na gloriosa cidade de Jaú em São Paulo, a uma receita de bolo, a um copo, a um sambista mineiro, a uma música, a uma cerveja, a um bar, a um bloco de carnaval e é pano de fundo para o enredo de ásperas e líricas histórias de Wander Piroli.

Dentre tantos lugares apenas um é chamado de “Lagouinha” e rima com o famoso Copo, cuja fama e projeção internacional despertam os mais diferentes sentimentos nas pessoas. Para alguns, a Lagoinha é incompreendida e considerada transgressora dos valores da tradicional família mineira e do positivismo que funda a capital de Minas Gerais. Para outros é viva e guardiã da história de Belo Horizonte, assim como de uma arquitetura e modos de vida quase extintos pela agitada vida da metrópole.

Mas por que a nossa região recebeu esse nome?

O registro escrito mais antigo

Em 19 de janeiro de 1711, o governador da Capitania de São Paulo e Minas do Ouro, Antônio Albuquerque Coelho de Carvalho, formalizou, em Caeté, a exploração de João Leite da Silva Ortiz. Por meio de uma carta de sesmaria, concedeu-lhe o direito de explorar uma extensão de terras que começavam ao sul sob o pé da Serra do Curral indo até o norte na “Alagoinha”, contígua à estrada que vai para a Bahia (chamada posteriormente de Estrada de Venda Nova), mesmo local que hoje corresponde às ruas Itapecerica, Formiga, Diamantina e Manuel Macedo.

Planta da casa e terreno de Damaso dos Santos Benfica, entre o Córrego Lagoinha e a Estrada de Venda Nova. Fonte: APCBH, entre 23/05/1894 e 14/05/1895.

No fim do século XIX, a região aparece nos papéis com outro nome, Vargem da Lagoinha. Vargem é o mesmo que várzea, terreno cultivável às margens de um rio. Essa porção de terra foi desenhada e descrita por Michel Bessens, sob orientação do engenheiro Samuel Gomes Pereira, em 31 de maio de 1893, quando engenheiros, sob o encargo do Governo de Minas, ainda estudavam os cinco locais indicados para receber a terceira capital; são eles: Belo Horizonte, Várzea do Marçal (situada em São João del-Rei), Barbacena, Juiz de Fora e Paraúna (atual Presidente Juscelino).

Registro da Vargem da Lagoinha na planta desenhada e descrita por Michel Bessens. Fonte: REIS, Aarão Leal de Carvalho. Commissão d’Estudo das Localidades Indicadas para a Nova Capital (Minas Geraes). Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1893. Anexo: Plantas das Localidades Estudadas.

A versão do padre

Existe outra explicação para o nome, e ela merece registro. Augusto de Lima Jr. atribuiu o topônimo ao sobrenome do Padre Manuel da Silva Lagoinha, que teria colonizado o local. É uma hipótese que circula há décadas e ainda permanece sem confirmação, pois até hoje não consegui encontrar mais informações ou registros oficiais de sua existência. De toda forma, gosto de imaginar que esse padre bandeirante deixou por aqui a fé que permanece na alma de quem mora na região, gente que hoje professa os mais diversos credos.

A geografia explica o nome

A região da Lagoinha está localizada no divisor de águas das bacias do Ribeirão do Onça e do Ribeirão Arrudas, tem topografia acidentada e é entrecortada pelos córregos do Pastinho e da Lagoinha.

Nas cheias, a água transbordava e se acomodava nas partes baixas, formando pequenos espelhos d’água, entre lagoas, alagadiços e remansos. Não era um. Eram diversos, e todos podiam ser vistos de vários pontos do arraial. Contudo, quero focar apenas nos quatro (alagadiços e remansos) que estão dentro dos limites da região da Lagoinha definidos no livro que publiquei, em 2021, denominado ‘Nossas Ruas Nosso Patrimônio (in)visível: Dicionário Toponímico da Região da Lagoinha’.

Um alagadiço se formava sobre o Córrego da Lagoinha, no trecho da atual Avenida Presidente Antônio Carlos entre as Ruas Adalberto Ferraz e Formiga. Outro se formava sobre o Córrego do Pastinho, também chamado de Menezes, no trecho da Avenida Dom Pedro II entre as Ruas Jaguari e Peçanha. Havia ainda dois remansos do Ribeirão Arrudas: um nas proximidades do encontro das Ruas Pouso Alegre e Célio de Castro com o Complexo da Lagoinha, e outro na altura da antiga Ponte do Saco, entre as Ruas Rio Grande do Sul e Tupinambás e a Avenida do Contorno.

Mapa da Região da Lagoinha com localização das lagoas, córregos e alagadiços. Fonte: acervo pessoal.

Se eram vários, por que o lugar não se chama Lagoinhas? Tenho uma explicação de que gosto, e o leitor pode ficar à vontade para não concordar comigo. O mineiro é matuto e economiza forças para falar, de modo que não pronuncia o esse do plural. Alguma energia precisa ser guardada para contar tanta história e tanto causo.

Onde foi parar a água

Esses cursos d’água sumiram porque a cidade decidiu que eles atrapalhavam. O Córrego da Lagoinha, que produzia alagamentos no período de cheias, foi canalizado. Sobre ele se abriu a chamada Avenida Sanitária, cuja pedra fundamental veio com o Decreto municipal nº 19, de 27 de dezembro de 1927, do Prefeito Cristiano Monteiro Machado. A norma desapropriou os terrenos ao longo do córrego, da Rua Formiga até a Avenida Nossa Senhora de Fátima, para drenar os terrenos ribeirinhos, acabar com as cheias que destruíam as casas da beirada e desafogar o trânsito da Rua Itapecerica. Os moradores resistiram, foram à justiça e encareceram as indenizações. Aquela avenida sanitária, depois de mudar de nome outras vezes, é hoje a Avenida Presidente Antônio Carlos.

No leito do Córrego do Pastinho existiu até um moinho d’água, mas essa história vou contar em outro artigo.

Sumiram os alagadiços, o motivo do nome que permaneceu. Resistiu à canalização dos córregos, ao asfalto, aos túneis e ao complexo viário, e continua sendo o que os moradores dizem quando querem nomear o lugar onde vivem. Fico com uma pergunta e deixo com o leitor: quantas cidades por aí carregam no nome a memória de uma paisagem que elas mesmas enterraram?


Daniel Silva Queiroga. Advogado, Professor, Doutor em Direito, especialista em patrimônio cultural e direito urbanístico. Professor de pós-graduação (IEC.PUCMinas) e ex-Chefe de Gabinete do IEPHA-MG. Autor do livro Nossas Ruas Nosso Patrimônio (in)visível: Dicionário Toponímico da Região da Lagoinha (2021) e do Casas da Lagoinha @danqueiroga



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