Por Daniel Queiroga — Colunista de Cidade e Patrimônio
Na Lagoinha, quem chega pede licença. Nem todo mundo que chegou aqui teve esse cuidado.
Uma estaca, não uma pedra fundamental
Em 5 de março de 1894, um homem fincou uma estaca no chão, nas proximidades da Ponte da Lagoinha, sobre o Ribeirão Arrudas. Chamava-se Luís de Oliveira Castanheira de Almeida e era membro da Comissão Construtora da Nova Capital.
A estaca marcava o início da exploração do ramal férreo e foi o primeiro ato de construção de Belo Horizonte. Não houve pedra fundamental, nem discurso, nem missa. Houve uma estaca.
Dias antes, o idealizador da capital e responsável pelas obras, o engenheiro Aarão Reis, havia se reunido com os moradores do Arraial do Curral del Rey para se apresentar e informar que os trabalhos iam começar, conforme registrou Abílio Barreto. O ato foi cordial.
O que não foi dito é que aquela gente e aquele lugar não estavam previstos para permanecer. A planta da capital seria desenhada por cima do arraial, e este seria varrido do mapa junto com as memórias do seu povo. A Nova Capital nasceria administrativa e moderna, pensada para os servidores e políticos que viriam de Ouro Preto, e não para quem já morava ali.
O lugar que a capital não planejou
Os documentos da própria Comissão confirmam o desencontro. A divisão do território não respeitou as características geográficas, hidrográficas nem todas as toponímicas anteriores à fundação do arraial. E o plano não previa onde morariam os trabalhadores e imigrantes que iam levantar a cidade.
Muitos acabaram em cafuas e barracões de lona ou zinco, e boa parte se estabeleceu justamente na Vargem da Lagoinha, a faixa de terra cultivável às margens do Arrudas que ficava fora do arraial. Hoje ela corresponde, quase inteira, à região formada pelos bairros Bonfim, Lagoinha, São Cristóvão, Senhor dos Passos, Pedreira Prado Lopes e partes de Carlos Prates, Colégio Batista, Santo André e Centro.
A Lagoinha, portanto, foi o lugar onde a capital começou e, ao mesmo tempo, o lugar que a capital não planejou. Tarcízio Ildefonso Costa resumiu isso melhor do que qualquer análise:
“A Lagoinha, para quem é ruim de geografia, é a capital de Belo Horizonte”
Peço licença para chegar
Conto essa história porque ela ensina alguma coisa sobre chegar. A história, como conhecimento, existe para responder ao que aconteceu, quem participou, quando e onde. Respondidas essas perguntas, sobra uma questão que é nossa: o que fazemos com isso agora. Em outras palavras, como transformar o passado em conhecimento útil para o presente?
Começo, então, pelo que a Comissão Construtora da Nova Capital não fez. Peço licença para chegar. E agradeço à Gazeta da Lagoinha pelo convite para integrar o time de colunistas desta nova fase, que me permite fazer esse pedido em público e por escrito.
Sou Daniel Silva Queiroga, marido da Natalia e pai do Francisco. Nasci na antiga maternidade Ernesto Gazzoli, na Rua Além Paraíba, em frente à Igreja Nossa Senhora da Conceição, pelas mãos da doutora Beatriz.
Filho do seu Hélio Salatiel e da dona Glória. Neto do seu Hélio e da dona Dazita, ele de Materlândia, ela de São João Evangelista, e do seu Alcides e da dona Rachel, ele de Belo Vale, ela belo-horizontina neta de italianos que atravessaram o oceano atrás de uma vida melhor. Parte da minha família chegou da Itália em 1896, para trabalhar na construção de Belo Horizonte. Sou a quarta geração de belo-horizontinos da família Boscato Ferri.
Iniciei meus estudos no Jardim Cinderela da tia Rosa, na Rua Itatiaia, a poucas portas da sede da Rádio Itatiaia, que foi quem deu nome à rua. Formei-me em Direito e em Relações Internacionais, e gosto de cidades, de cultura, de livros, de blocos de montar e de abelhas sem ferrão.

Registro da Família Boscato Ferri na Rua Resende Costa (década de 1960) – acervo pessoal
O que chamamos de patrimônio
Sou mais um nessa colcha de retalhos de migrantes e imigrantes que formou a Lagoinha que temos hoje, plural nas cores, nos idiomas, nas crenças e nos costumes. Uma cultura que é o contraponto vivo da cidade planejada. Por essa mistura sou brasileiro e italiano, mas a minha primeira pátria é a Lagoinha!
Por isso, me identifico completamente com o que Wander Piroli escreveu uma vez:
“A minha visão de mundo é a visão da Lagoinha”
O amor pela minha terra natal me fez mover esforços para conhecer sua história e buscar preservar a memória que temos guardada em cada fragmento espalhado pelas nossas ruas, praças, becos, travessas, avenidas e casas. Esses fragmentos, somados a tantos outros, de outros lugares e pessoas, representam um trabalho quase arqueológico.
Quando você junta esses cacos, percebe que eles se conectam por significados, sentidos e valores, e o conjunto revela a matéria de que é feita a memória de uma sociedade. É a isso que chamamos patrimônio cultural: bens materiais e imateriais que, isolados ou reunidos, representam a identidade de um grupo social.
Daí a necessidade de preservar. Não como nostalgia, e sim como decisão presente sobre o que queremos ter adiante. Nem todo antigo é bom, nem todo novo é melhor. O caminho é o equilíbrio, construído com diálogo e sentido de comunidade, com os pés no chão, conciliando passado e presente para ressignificar e seguir evoluindo.
O que você vai encontrar aqui
É esse o serviço que pretendo prestar nesta coluna. Trarei temas de patrimônio cultural, urbanismo, direito e cotidiano, e outros que com eles se relacionem. A sugestão de pautas fica franqueada desde já aos leitores.
Espero que este espaço ajude o leitor a enxergar o invisível: nos marcos arquitetônicos, nas casas, na vida cotidiana e também nas chagas deixadas pelo Complexo da Lagoinha e pela duplicação da Avenida Presidente Antônio Carlos.
Daniel Silva Queiroga. Advogado, Doutor em Direito, especialista em patrimônio cultural e direito urbanístico e imobiliário. Professor do IEC.PUCMinas e ex-Chefe de Gabinete do IEPHA-MG. Autor do livro Nossas Ruas Nosso Patrimônio (in)visível: Dicionário Toponímico da Região da Lagoinha (2021) e do Casas da Lagoinha. @danqueiroga






