Cinquenta anos sem JK (parte 1): a Lagoinha no caminho da Pampulha

Por Daniel Queiroga — Colunista de Cidade e Patrimônio

Juscelino Kubitschek governou Belo Horizonte entre 1940 e 1945. A Lagoinha entrou no seu projeto de modernização porque ficava no caminho entre o Centro e a Pampulha, e esse projeto deixou marcas ainda hoje visíveis na paisagem.

Em 22 de agosto, completam-se cinquenta anos da morte de Juscelino Kubitschek de Oliveira, na Via Dutra, perto de Resende (RJ). Ele tinha sido governador de Minas Gerais, presidente da República e senador por Goiás. Nada disso estava no horizonte quando, no início de 1940, o interventor Benedito Valadares o chamou ao Palácio da Liberdade para dizer que decidira nomeá-lo prefeito de Belo Horizonte.

Juscelino conta a cena em sua autobiografia, Meu caminho para Brasília. A primeira reação foi de simpatia, por um motivo que vale registrar: enxergou ali a chance de retribuir à cidade, em trabalho, o que ela lhe proporcionara. Tinha chegado a Belo Horizonte ainda adolescente, com a mala às costas, e a cidade lhe deu o emprego e o recebeu de braços abertos.

A segunda reação foi recusar, diante do compromisso assumido depois do golpe de 1937 de não voltar à política. Havia também um problema de consciência. O Brasil vivia sob a ditadura do Estado Novo, em que liberdade, direitos civis, representação popular e eleições, tudo aquilo em que Juscelino dizia acreditar, tinham ruído como um castelo de cartas. Aceitar um cargo daquele governo, escreveu ele, seria cometer uma apostasia.

Benedito insistiu com o argumento que sabia que funcionaria. Disse, em tom confidencial, que o país caminhava para a democratização e que precisaria dele nas eleições em Belo Horizonte. Juscelino se abalou, mas manteve a recusa.

Dois meses depois, na noite de 15 de abril de 1940, o diretor da Imprensa Oficial chamou-o ao gabinete e lhe entregou um papel para ler. Era uma ordem de Benedito Valadares, que estava em Araxá, determinando a publicação do decreto de nomeação no dia seguinte. Juscelino pediu que a publicação fosse sustada até que ele falasse com o governador. Não havia ligação telefônica entre Belo Horizonte e Araxá, o jornal Minas Gerais estava prestes a fechar a edição e ninguém ali desobedeceria ao interventor.

[FOTO: Juscelino Kubitschek quando prefeito de Belo Horizonte (1940 a 1945). Crédito: APCBH, s/d.]

O médico que virou prefeito

Antes da posse, que aconteceu no dia 18 de abril, Juscelino se fechou na biblioteca da sua residência, na Rua Ouro Preto, para decidir o que fazer com um cargo que não pedira. Consolou-se com uma distinção: era função administrativa, não política. Até ali trabalhara sobre o organismo humano, e dali em diante o material seria uma cidade. Avenidas e ruas eram artérias e veias, a rede de tráfego era circulação, os parques eram pulmões.

“O doente ali estava. Era Belo Horizonte”, escreveu.

Um cirurgião trabalha cortando. E foi isso justamente que ele fez.

Juscelino tinha pressa, no intuito de devolver o que tinha recebido da cidade que o acolheu, modernizando-a. A pressa lhe rendeu o apelido de prefeito furacão, que nas suas memórias registra como termo pejorativo, justamente pelo hábito de vistoriar as obras pessoalmente, na rua, em vez de despachar do gabinete. E havia muito o que vistoriar. Pavimentou cerca de 680 mil metros quadrados de vias em pouco mais de um ano no cargo. Além do asfalto, foram projetados mais de 42 quilômetros de avenidas radiais para ligar os bairros à área central, entre elas a Avenida da Pampulha (sobre a qual falo adiante), a Teresa Cristina ao longo do Ribeirão Arrudas, a Silviano Brandão, a Dom Pedro II e a Francisco Sá, além do prolongamento da Afonso Pena rumo à Serra do Curral e da desobstrução da Paraná para ligá-la à Amazonas.

Ainda construiu o Cemitério da Saudade e os primeiros restaurantes populares, e promoveu, em 1944, o primeiro Salão de Arte Moderna da capital, apelidado de Semaninha da Arte Moderna, num meio artístico ainda bastante conservador.

A Pampulha e a Lagoinha

A Pampulha, com certeza, foi o maior símbolo da sua gestão. Chamou Oscar Niemeyer para projetar o Cassino, a Casa do Baile e a Igreja de São Francisco de Assis às margens da represa, que ele alteou para triplicar a capacidade original de acumulação e aumentar a área inundada do espelho d’água. Os equipamentos se distribuíram ao longo da nova orla, circundada pela Avenida Getúlio Vargas, hoje Otacílio Negrão de Lima.

Juscelino apostou numa arquitetura que ainda não tinha lugar no Brasil e que inspiraria Brasília, o modernismo. Uma visão pensada para os novos modos de viver; no caso da Pampulha, o foco era o lazer, o turismo e os esportes. Ele queria colocar Minas, um estado sem litoral, no circuito dos esportes náuticos, e Belo Horizonte na vanguarda entre as grandes cidades do mundo. Essa paisagem social e espiritual, como ele mencionou, foi inscrita na UNESCO como Patrimônio Mundial, em 2016.

[FOTO: Oscar Niemeyer em visita ao Conjunto Moderno da Pampulha, em frente à Igreja de São Francisco de Assis. Crédito: APCBH, 1989.]

Faltava resolver um problema, com os poucos recursos de que a prefeitura dispunha durante a Segunda Guerra Mundial: como ligar o conjunto à cidade? Os engenheiros municipais propuseram uma via de 6,8 quilômetros, comum, parecida com as demais estradas do estado. Juscelino achou pouco: queria uma autoestrada de 8,5 quilômetros que partiria da Praça da Lagoinha (antiga Praça Vaz de Melo), com 25 metros de largura no perímetro urbano e 125 na área rural. Nas suas memórias, explica o que tinha em mente:

“Não seria, pois, tão somente uma autoestrada, mas um verdadeiro boulevard, do tipo dos que havia visto em Paris, com diferentes pistas de rolamento, aleias ajardinadas, gramados redolentes, bancos de madeira para quem quisesse espairecer e, sobretudo, os grandes espaços abertos para o prazer da vista e o relaxamento dos nervos.”

Mandou refazer o projeto e estabeleceu o prazo de oito meses para a obra. Concluída, a estrada tinha 11,8 quilômetros, quase cinco deles em linha reta. O caminho escolhido foi a atual Avenida Presidente Antônio Carlos.

A escolha decidiu o destino da Lagoinha pelas décadas seguintes. O bairro deixou de ser apenas um lugar onde se morava e passou a ser também um trecho de percurso e passagem. Tudo o que a gestão fez ali, e tudo o que deixou de fazer, se explica por essa posição. É o assunto da segunda parte desta coluna, na próxima semana.

Sobre o autor: Daniel Silva Queiroga. Advogado, professor, doutor em Direito, especialista em patrimônio cultural e direito urbanístico. Professor de pós-graduação (IEC.PUCMinas) e ex-chefe de gabinete do IEPHA-MG. Autor do livro Nossas Ruas Nosso Patrimônio (in)visível: Dicionário Toponímico da Região da Lagoinha (2021) e do Casas da Lagoinha. @danqueiroga



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