Por André — Colunista de Política Pública
Localizado ao lado do Centro de Belo Horizonte, o bairro Lagoinha, na região Noroeste da capital mineira, carrega uma história marcada pela boemia, pela cultura popular e pela intensa movimentação de pessoas. Durante décadas, suas ruas foram endereço de bares, restaurantes, oficinas, pequenos negócios e estabelecimentos que ajudaram a construir a identidade de uma das regiões mais tradicionais da cidade.
Mas, com o passar dos anos, essa realidade mudou.
Um bairro histórico diante de portas fechadas
Quem circula atualmente pela Lagoinha encontra uma paisagem que contrasta com a história do bairro. Portas fechadas, imóveis abandonados, fachadas deterioradas e estabelecimentos que já não funcionam fazem parte do cenário. O comércio, que durante muito tempo foi uma das principais forças econômicas da região, perdeu espaço e, em muitos locais, a movimentação diminuiu consideravelmente.
O fechamento de lojas não pode ser explicado por uma única razão. É resultado de um conjunto de problemas que se acumularam ao longo dos anos e que passaram a afetar diretamente comerciantes, moradores e consumidores.
O fechamento não tem uma causa única
Um dos fatores apontados por quem vive e trabalha na região é a transformação do perfil de algumas áreas do bairro. A concentração de ferros-velhos, depósitos e atividades comerciais de baixo fluxo, somada à presença de pessoas em situação de vulnerabilidade social e usuários de drogas, contribuiu para modificar a dinâmica de determinadas ruas.
É importante destacar que pessoas em situação de vulnerabilidade não devem ser tratadas como causa isolada da degradação urbana. O problema é mais amplo e envolve ausência ou insuficiência de políticas públicas permanentes de assistência social, saúde, segurança, habitação, limpeza urbana e recuperação dos espaços públicos.
Na prática, porém, o comerciante sente os efeitos dessa transformação. Uma loja depende de circulação de pessoas, sensação de segurança, conservação das ruas e disposição do consumidor para permanecer naquela região. Quando esses elementos desaparecem, o movimento diminui e o faturamento cai.
As despesas continuam, e muitos empresários acabam diante de uma decisão difícil: insistir no negócio ou fechar as portas.
Um ciclo que se retroalimenta
O resultado pode ser visto nas próprias fachadas. Uma loja fechada gera menos circulação. Menos circulação pode aumentar a sensação de abandono. O abandono, por sua vez, desestimula novos investimentos.
Forma-se, assim, um ciclo perverso: comércio fechado, menor movimento, deterioração do ambiente urbano e mais estabelecimentos deixando a região.
Os efeitos sobre quem permanece
A situação também produz um efeito sobre quem ainda permanece. Com menos empresas funcionando, diminuem os empregos e os serviços oferecidos aos moradores. Imóveis comerciais perdem valor e ficam mais difíceis de alugar, e proprietários passam a enfrentar longos períodos com os espaços vazios.
E os comerciantes que resistem precisam conviver diariamente com um cenário que, muitas vezes, não oferece as condições necessárias para a recuperação do negócio.
Há ainda outro problema: a imagem da Lagoinha. Um bairro conhecido historicamente pela boemia e pela cultura passa a ser associado, cada vez mais, ao abandono, à insegurança e à degradação. Essa percepção, mesmo quando não representa todas as ruas e todos os moradores, interfere diretamente na decisão de quem pretende abrir uma empresa ou simplesmente escolher onde consumir.
A discussão precisa ir além da segurança
E é justamente aí que a discussão precisa ir além da segurança pública. Não basta apenas aumentar a presença policial em determinados horários. Segurança é fundamental, mas a recuperação de uma região exige um projeto mais amplo.
É necessário cuidar das calçadas, da iluminação, da limpeza, da fiscalização de atividades irregulares, da ocupação dos imóveis, da assistência às pessoas em situação de rua e dependência química e, principalmente, criar condições para que o comércio volte a enxergar a Lagoinha como um lugar possível para investir.
A recuperação econômica também precisa caminhar junto com a recuperação social.
O comerciante não pode ser colocado em oposição à população vulnerável.
O morador em situação de rua também não pode ser simplesmente retirado de um local e transferido para outro. Sem atendimento adequado, o problema apenas muda de endereço. O que a Lagoinha precisa é de uma política contínua, integrada e capaz de enfrentar as diferentes causas da degradação.
Recuperar o comércio é recuperar o bairro
É preciso devolver às ruas aquilo que todo bairro comercial necessita: movimento. Movimento de moradores, trabalhadores, consumidores, famílias, empreendedores e visitantes.
Ruas ocupadas por atividades econômicas e culturais tendem a ser mais vivas. Imóveis utilizados e bem cuidados ajudam a mudar a paisagem. Negócios funcionando geram empregos, arrecadação e circulação de pessoas.
A Lagoinha tem uma história que não pode ser resumida às portas fechadas. O bairro ainda possui localização privilegiada, identidade cultural, memória, patrimônio e uma população que conhece suas ruas e deseja vê-las novamente valorizadas. O desafio é transformar esse potencial em uma estratégia concreta de recuperação.
Cada estabelecimento que fecha representa mais do que uma porta baixada. Representa um emprego que pode desaparecer, um imóvel que fica vazio, uma família que perde renda e mais um ponto de atividade econômica que deixa de existir.
Por isso, discutir as lojas fechadas da Lagoinha é discutir o futuro do próprio bairro. A cidade precisa decidir se aceitará que a degradação continue avançando ou se será capaz de recuperar uma região que já foi símbolo de boemia, comércio e vida urbana.
A Lagoinha não precisa apenas de novos negócios. Precisa de condições para que eles possam permanecer. Porque, quando uma loja fecha, não é apenas o comerciante que perde. Aos poucos, perde também o bairro, perde a cidade e perde uma parte da história de Belo Horizonte.






