Por Dimas — colunista de Empreendedorismo
Algumas profissões permitem acompanhar de perto a vida das pessoas. A de cabeleireiro é uma delas. Durante 36 anos, Antônio Valmir Álvaro dos Santos, o Tunai, não apenas cortou cabelos: ele viu gerações crescerem, amizades se reencontrarem, histórias de amor começarem e acompanhou de perto as transformações da Lagoinha.
Do interior para a Lagoinha
Natural do interior, Tunai chegou a Belo Horizonte aos 17 anos, em busca de uma oportunidade. Começou trabalhando como office boy e, pouco tempo depois, um encontro mudaria o rumo de sua vida.
Ele começou a namorar uma vizinha e descobriu que os irmãos dela eram cabeleireiros. O interesse pela profissão surgiu naturalmente. Fez um curso e nunca mais deixou a tesoura de lado.
No início, trabalhou com um dos cunhados no bairro Caiçara. Depois, surgiu a chance de trabalhar com outro cunhado no bairro São Cristóvão, na Rua Araribá, em frente ao Conjunto IAPI.
Mas o sonho sempre foi ter o próprio salão.
A loja da Rua Itapecerica
Foi então que, passando pela Rua Itapecerica, encontrou uma loja que estava sendo passada. O local funcionava como uma farmácia.
Conversou com o proprietário, fechou o negócio e começou ali uma história que já dura 36 anos.
O começo não foi fácil
Como acontece com muitos profissionais que abrem um negócio próprio, os primeiros tempos foram de incerteza.
“Tem dia que você atende uma, duas ou três pessoas e tem dia que não atende ninguém. Dá até um frio na barriga”, conta, com bom humor.
Foi nesse momento que Tunai percebeu que precisava conquistar o cliente não apenas pelo corte, mas principalmente pelo atendimento. Passou a tratar cada pessoa como gostaria de ser tratado: com respeito, alegria, atenção e capricho.
“Eu gostaria que fizesse o meu cabelo bem feitinho, que me atendesse com alegria.”
A estratégia deu resultado. Aos poucos, a clientela cresceu e o salão passou a fazer parte da rotina de muitas pessoas da região.
A barbearia virou ponto de encontro
Mais do que um lugar para cortar o cabelo, o salão acabou se transformando em um ponto de encontro da comunidade.
A correria do dia a dia muitas vezes impede que antigos conhecidos se encontrem. Mas, na cadeira do salão, essas histórias acabam se cruzando novamente.
“Às vezes um nem tem tempo de ver o outro. Todo mundo na sua correria. Aí eles se encontram aqui. Pessoas que estudaram juntas no Silviano, no Municipal… É muito bacana.” [Escola Estadual Silviano Brandão e Colégio Municipal]
E essa convivência fez com que ele acompanhasse várias gerações de famílias. “Às vezes são filhos, pais, netos, avós. Todo mundo.”
E até história de amor já começou ali
Entre tantas histórias vividas dentro do salão, uma delas ganhou um significado especial. Duas pessoas se conheceram ali, começaram a namorar e, posteriormente, chegaram ao casamento.
“Eu achei muito legal.”
É uma daquelas histórias que mostram como um comércio de bairro pode ser muito mais do que simplesmente um estabelecimento comercial. Ele acaba fazendo parte da vida das pessoas.
A profissão mudou, e muito
Apesar de manter a essência do atendimento, a profissão mudou bastante ao longo dessas décadas.
Tunai faz questão de explicar que se considera mais cabeleireiro do que barbeiro e que não trabalha muito com barba. Mas reconhece a grande transformação que aconteceu no setor, principalmente com o crescimento das barbearias modernas e do estilo retrô.
As máquinas ficaram mais potentes, precisas e práticas. Surgiram equipamentos sem fio, tesouras com materiais mais avançados e novas técnicas.
Do “Príncipe Danilo” ao navalhado
Os cortes também acompanharam as mudanças. No passado, os pedidos mais comuns eram o famoso “Príncipe Danilo”, entre os homens, e o “Pigmaleão”, entre as mulheres.
Hoje, os clientes procuram cortes como o disfarçado e o navalhado, enquanto as mulheres apostam em cortes repicados, franjas e estilos mais modernos.
[INFOGRÁFICO: linha do tempo dos cortes mais pedidos no salão, do “Príncipe Danilo” e “Pigmaleão” ao disfarçado, navalhado e repicado]
A pandemia: um dos momentos mais difíceis
Entre os momentos mais difíceis de sua trajetória, Tunai não hesita em apontar a pandemia da Covid-19. Com os comércios obrigados a fechar, muitos profissionais e comerciantes precisaram enfrentar meses de incerteza.
“Quem não teve uma reserva para conseguir pagar os aluguéis teve que fechar mesmo, para sempre. Foi um período bem complicado.”
O que o fez continuar? Persistência e fé. “Eu acredito em Deus que tudo vai melhorar.”
36 anos também ensinaram a respeitar as diferenças
Durante tantos anos conversando diariamente com clientes, ele diz ter aprendido muito mais do que técnicas profissionais. Aprendeu a ouvir.
“Percebi como é grande a diversidade de pensamento. Cada um de nós, dependendo de como foi criado e até da religião que tem, diante dos problemas tem uma interpretação diferente.”
Para ele, entender e respeitar essas diferenças é uma forma de viver melhor. “Eu acho que isso traz mais paz.”
Uma relação que permanece
Depois de 36 anos, uma coisa continua igual: o cliente quer ser bem atendido e o profissional precisa buscar oferecer o melhor. É uma relação baseada em confiança, respeito e dedicação.
E é justamente essa relação que fez com que Tunai criasse raízes na Lagoinha. Quando chegou ao bairro, não sabia se permaneceria ali por tantos anos. Hoje, a resposta é clara:
“Eu gosto demais dessa Lagoinha.”
Ele lembra que, quando começou, a Rua Itapecerica era muito diferente. Era uma rua movimentada, com forte presença do comércio de móveis usados e, segundo ele, muito mais limpa do que atualmente.
Apesar das dificuldades e do que considera falta de atenção do poder público, ele acredita que a essência do bairro permanece.
“A Lagoinha é como uma grande família”
Para Tunai, a Lagoinha representa conquista, respeito e carinho. Foi ali que construiu sua vida profissional e conquistou muitas das coisas que possui hoje.
“Tenho um respeito e um carinho pela população daqui como se fosse uma grande família.”
E, mesmo diante dos problemas, mantém a esperança: “Eu acredito e espero em um futuro muito melhor para nossa Lagoinha.”
Um conselho para quem está começando
Depois de 36 anos de profissão, talvez a principal lição esteja justamente na forma como ele começou: pensando primeiro no cliente. Para os jovens que estão entrando agora na profissão, deixa um conselho simples:
“É uma profissão muito boa, muito gostosa. Eles têm que se preocupar mais em atender com amor, com carinho e com dedicação, primeiro, antes de se preocupar com o dinheiro. Porque o dinheiro vem por consequência.”
E talvez seja justamente essa filosofia que explique por que, depois de 36 anos, Tunai continua atrás da cadeira, conversando com seus clientes, vendo gerações passarem e fazendo parte da história da Lagoinha.
Salão Tunai 📍 Rua Itapecerica, 999, Lagoinha 📞 Telefone e WhatsApp: (31) 99122-7696 📱 Instagram: @tunaisantos
Há 36 anos fazendo parte da história da Lagoinha, com dedicação, respeito e carinho pelos seus clientes.







